saca-rolhas, ampulheta, preâmbulo
- arquivo de memórias
- 2 de fev. de 2017
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uma ladeira no ar, explicou, mas ninguém conseguia entender. tinha dado de se explicar complicando, e os amigos já não aguentavam. uns sumiam, não atendiam mais os telefonemas com medo de ouvir uma resposta de 40 minutos a um simples alô, outros mandavam cartas dizendo que só compareceriam ao jantar caso ela pudesse se fazer entender de uma vez por todas. gostaria de poder responder somente “sim”, mas o seu de dentro mandava dizer que: havendo situações positivas e negativas, e há também o neutro não podemos nos esquecer, e também a matéria escura que pesa mais que o espectro visível e observável da natureza, mas dentro desse espectro, e dentro das faculdades humanas de distinção do real e da farsa, do máximo e do mínimo, o céu e a terra (mas e o horizonte?), simplificando, entre o sim e o não: sim. havia se tornado insustentável, mas por mais que tentasse não conseguia lembrar essa palavra e tentava de todas as formas fazer com que entendessem: uma certa aventura sustentada por cabos, uma arca que levita sobre a península. uns enchiam o copo de vinho, outros liam notícias do futebol no celular, alheios ao labirinto que Mônica percorria para explicar uma palavra longa e impossível, como se a palavra fizesse o percurso que seu nome descreve: um início alto, - existe um platô - existem outros postes/verticais que sustentam tanto a travessia física como a palavra, que se dirige à terra, circular, um centro gravitacional, zero, letra O. termina em letra O! ninguém ainda adivinhava. uma palavra como outras palavras impossíveis: saca-rolhas, ampulheta, preâmbulo, tessitura. lembrou-se da caixa de fotos antigas que guardava no armário do escritório, e correu para alcançá-la. teve medo de que as fotografias tivessem se misturado umas às outras, como seu pensar. talvez tivessem já se decomposto e se rearranjado com formas de outra natureza, a cabeça de tia Tereza junto ao corpo do cachorro Toby, a casa de igaratá submersa no primeiro banho de banheira da bebê Michelle, teria a ferrugem da lataria do fusca enferrujado os óculos de vovó Letícia ou pior, o olhar magnético do pai atraído um pedaço do navio de cruzeiro das férias de família em 89? a caixa rosada guardava uma centena de imagens, que por mais desbotadas, resistiam bravamente à desorganização do passar dos anos e das gerações e de 7 mudanças de casa em menos de uma década, e comparadas à sua memória eram recortes cristalinos de espaços e tempos, portais físicos, reais, que ela poderia mostrar se conseguisse ao menos achar aquela foto, uma faixa de areia que vem em nossa direção e os prédios avassaladores, verticais, uma subida aos céus sem metafísica, um corpo d'água que forma um L, tem que estar nessa caixa a foto: aqui! qual é o nome disso, me digam.
Texto: Guilherme Ávila
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